Encontro em prosa e verso: Katiana Rigaud

Encontros Prosa e Verso com a escritora, administradora e professora Katiana Rigaud – KR

Katiana Rigaud

A Editora Via Litterarum – Via entrevista a poeta, escritora e  administradora Katiana Rigaud, abordando algumas questões com vistas à compreensão acerca do ato de escrever e sobre a criação literária propriamente dita.

SOBRE O ATO DE ESCREVER

VIA – Como e em que momento ou circunstância você se percebeu como LEITOR e que a leitura faria parte de sua vida? 

KR –   Eu sempre fui questionadora, gosto de argumentos e de pensar sobre as coisas, quando era criança os adultos não compreendiam, então fiquei reservada observando construindo comigo mesma esse viés. Me lembro que um professor de histórias da escola fazia listas de perguntas e eu pegava os livros de história e lia todos para formar uma resposta. Como não sou uma leitora de romances, pensava que não era leitora. Hoje compreendo melhor. (resposta resumida com essas pontuações, risos)

VIA –  Como e em que momento ou circunstância se percebeu como CRIADOR LITERÁRIO ou AUTOR e que escrever faria parte de sua vida?

KR –   Recebi elogios algumas vezes ao longo da vida sobre minha escrita em circunstâncias diversas, nada literário. A primeira vez que escrevi um livro foi uma surpresa para mim. Foi rápido, assertivo e inesperado. Só quando publiquei esse livro que passei a me expressar mais por palavras escritas e, pelos retornos que recebi, inclusive de profissionais, aprendi que sou escritora natural e produzo prosa poética espontaneamente.

VIA – Hoje, em termos de ocupação do tempo dedicado ao trabalho, qual o espaço ocupado pela literatura?

KR –   Eu ainda tenho dificuldade em tirar um tempo só para isso, acabo priorizando outras demandas da rotina e responsabilidades. Sempre que vou escrever fico com receio de perder a ideia ou não conseguir, mas sempre consigo. Hoje meu objetivo é criar condições de ter meu tempo, que é o tempo de escrever no dia a dia. Não quero mais escrever somente nas brechas da rotina. Tenho muitos projetos de literatura estruturados e muitas ideias que quero desenvolver e transformar em livros.

VIA –  Alguns autores escrevem como uma necessidade existencial. Se fosse possível resumir a motivação principal do porquê escreve, qual seria?

KR –   É uma sensação tão agradável que supera a materialidade e vai mesmo para esse contexto da existencialidade como algo potente e  multiplicador de coisas boas e bons sentimentos – tanto diretamente a mim, quanto na (com)partilha).

VIA –  No período de um dia, qual seria a rotina enquanto escritor?

KR –   Sempre extraio frases e ideias de conversas, de sentimentos, de observações ao longo do dia, registrando ou não, as palavras estão na mente. Cada dia busco registrar mais, mas ainda preciso melhorar nisso, ainda espero o ambiente ideal para desenvolver um texto, por exemplo. Gosto muito de escrever a noite e sozinha.

VIA –  Como fica a sua relação entre INSPIRAÇÃO e REELABORAÇÃO DO TEXTO ESCRITO na sua criação literária?

KR –   Eu gosto de colocar a ideia no papel e depois leio e releio para ter certeza se o que quero dizer e o sentimento que quero transmitir estão coerentes com as palavras e sua disposição, se precisar ajusto.

SOBRE A CRIAÇÃO LITERÁRIA:

VIA –  Seguramente, todo escritor é antes um leitor. Enquanto leitor, qual autor (ou autores) e qual obra (ou obras) considera mais relevante para ser o escritor que é?

KR –   Clarice Lipector e João de Barros são nomes importantes, entre outros. Recentemente, gostei muito de Conceição Evaristo. Eu não sou formada em Letras, não estudei literatura fora da escola, não sou fã de romances e etc., me considero uma leiga, mas tem pessoas que me tocam especialmente quando leio.

VIA – Da primeira publicação até hoje, quantas obras possui?

KR –   Três, produzindo a quarta.

VIA – Qual obra considera a principal?

KR – Prefiro Gente, ela é especial e tornou minha vida ainda melhor. Também melhorou minha compreensão sobre tudo isso que estamos conversando. Aprendi muito e sinto muitas coisas boas. Inclusive os outros livros faço questão de trazer alguma inspiração desse primeiro. 

VIA –  Em qual gênero literário se situaria a parte principal de sua criação literária e que experiências possui em relação aos outros gêneros literários?

KR –  Demorei muito para definir, até hoje as pessoas tem dúvidas. Uma amiga professora de literatura afirmou que é prosa poética mesmo. Algum texto vai pro lado do ensaio, outro pro lado da poesia, mas no geral é a prosa poética. Eu gosto de ler crônicas, contos e o que eu chamo de “livro sobre algo”, de preferência que eu conheça a realidade, ainda que de forma lúdica e poética.

VIA –  Quanto escreve ficção, ao iniciar a narrativa está praticamente pronta ou essa tem vida própria, surpreendendo o próprio autor, só se conhecendo o enredo e o fecho no próprio processo de criação?

KR –   Minha ficção (pouca) sempre tem intencionalidade e realidade, posso poetizar e deixar a criatividade livre para me surpreender eu mesma (risos), mas direciono para o que quero. Sobre me surpreender, amo quando leio algo e digo: uau, eu escrevi isso! E realmente gosto, sinto e acredito. Algumas vezes fico insegura.

VIA –  Como vê a literatura em tempos de Internet, redes digitais, ChatGPT e outros aplicativos de Inteligência Artificial?

KR –   A pessoa que for “defender” o que o aplicativo “disser”, vai precisar no mínimo ler o texto construído (ou pedir para um robô projetado viver por ela, reproduzindo seu rosto e sua voz). Os falsos profissionais já existem, uns acreditam e outros conseguem sentir. As ameaças dessas tecnologias vejo mais no lado da segurança pública e saúde social, outros aspectos.

VIA –  Qual o maior problema para a poesia e a ficção, em uma palavra, para a literatura hoje?

KR –   Solidão.

As pessoas leem e escrevem na maioria das vezes sozinhas. Não alcança o gatilho de compra da prova social, então cria a ideia que ler e escrever não está na moda e quem se deixa levar pela moda comercial não faz ou esconde que faz; não tem incentivo em geral.

VIA –  Em qual (ou quais) projeto literário está se dedicando no momento?

KR –   Diretamente, o Clube de Lu e, através dele, apoiando projetos de  amigos.

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