Encontro em prosa e verso: Cyro de Mattos

O editor Agenor Gasparetto, da Via Litterarum, entrevista o escritor e poeta Cyro de Mattos abordando algumas questões com vistas à compreensão acerca do ato de escrever e sobre a criação literária propriamente dita desse consagrado autor.

 

SOBRE O ATO DE ESCREVER

VIA – Como e em que momento ou circunstância se percebeu como LEITOR e que a leitura faria parte de sua vida?

CM – Minhas primeiras leituras foram nas revistas em quadrinhos, que os meninos de minha cidade chamavam de gibi e guri. Meu imaginário começou com elas a conhecer heróis inesquecíveis. Daí passei a Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Paulo Setúbal e Humberto de Campos. Os livros desses autores, eu tomava emprestado a Seu Zeca Freire, o dono da Farmácia Popular.

VIA – Como e em que momento ou circunstância se percebeu como CRIADOR LITERÁRIO ou AUTOR e que escrever faria parte de sua vida?

CM – Na adolescência fui estudar em Salvador para concluir o ginasial e fazer o curso clássico. Como aluno do Colégio da Bahia (Central), no curso clássico, tornei-me um frequentador assíduo da enorme biblioteca desse educandário e um leitor voraz.  Nos idos de 1959-62, quando cursei a Faculdade de Direito da UFBA, comparecia sempre à Livraria Civilização Brasileira, na rua Chile, para adquirir as novidades literárias. Em 1960 escrevi meu primeiro conto, A Corrida, publicado no suplemento literário do Jornal da Bahia. O editor do suplemento era João Ubaldo Ribeiro, que se tornaria anos mais tarde um romancista enorme. De lá pra cá nunca mais deixei de correr na estrada das letras. Em 1966 estreava com o livro Berro de Fogo, contos, que risquei de minha bibliografia porque em pouco tempo a obra deixou de satisfazer ao autor.

VIA – Hoje, em termos de ocupação do tempo dedicado ao trabalho, qual o espaço ocupado pela literatura?

CM – Como estou aposentado há tempos da advocacia, sempre escrevo durante o dia e principalmente à noite quando invado a madrugada para dizer silêncios da solidão solidária.

VIA – Alguns autores escrevem como uma necessidade existencial. Se fosse possível resumir a motivação principal do porquê escreve, qual seria?

CM – Se não escrever, morro. Se escrever, morro também. O pássaro voa, o sapo pula, o peixe nada. Escrevo porque sou escritor.

VIA – No período de um dia, qual seria a rotina enquanto escritor?

CM – Não tenho um método que segue uma rotina, mas todos os dias estou escrevendo. Deixo que me vá quando estou escrevendo o assunto que se encaixa nesse ou naquele gênero. Só sei que a palavra é meu lugar onde tudo arrisco, ainda que seja um grão no deserto. Irriga minhas veias como a chuva a terra com suas mil línguas. Sem ela, não há o encanto, o espanto, a questão, o problema, o beijo, a lágrima, o riso, o obstáculo, não existe essa palavra só amor, não ocorre o epitáfio, não funciona o sentido.

VIA – Como fica a sua relação entre INSPIRAÇÃO e REELABORAÇÃO DO TEXTO ESCRITO na sua criação literária?

CM – Isso era mais no início. Depois de muitos anos lendo e escrevendo, você adquire alguma cancha e em consequência o domínio da escrita , e o texto pouco reclama para ser reelaborado.  Houve livro em que você transpirou mais do que em outro, foi o caso das narrativas de Os Brabos, do Cancioneiro do  Cacau, poesia, do romance Os Ventos Gemedores e de República Pinipá do Piripicado, romance transgressivo, publicado no ano passado.

SOBRE A CRIAÇÃO LITERÁRIA:

VIA – Quais autores que mais influenciaram sua obra?

CM – Gosto da ficção de William Faulkner, de Kafka, de Hemingway, da poética de Fernando Pessoa com os seus heterônimos, de Drummond de Andrade, dos romances e contos de Machado de Assis, de Jorge Amado e Adonias Filho, da novelística de Autran Dourado e da literatura infantojuvenil de Bartolomeu Campos Queirós. É bom saber que li muitos bons autores, brasileiros e estrangeiros, para chegar até onde hoje estou.  Literatura é inspiração e transpiração, você se torna um bom escritor lendo muito, escrevendo, escrevendo, escrevendo.

VIA – Da primeira publicação até hoje, quantas obras possui?

CM – Já publiquei 65 livros pessoais, entre o conto, romance, poesia para o leitor adulto, crônica, ensaio e literatura infantojuvenil. Além disso organizei dez coletâneas. No exterior publiquei 16 livros, Portugal (5), Itália (6), Alemanha (1), Espanha (2), França (1) e Dinamarca (1).

VIA – Qual obra considera a principal?

CM – Como sou autor em diversos gêneros, não posso citar uma obra como a principal. Gosto de Cancioneiro do Cacau, poesia, Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio), Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, Gênova, Itália; Os Brabos, contos e novelas, Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras; Os Ventos Gemedores, romance, Prêmio Nacional de Ficção Pen Clube do Brasil; O Mar na Rua Chile e Outras Crônicas, Finalista do Jabuti; O Menino Camelô, infantil, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes; Histórias do Mundo que Se Foi, juvenil, Prêmio Adolfo Aizen, da UBE/RJ; Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas, ensaio, publicação da EDUEM, editora da Universidade Estadual de Maringá.  Não posso deixar de citar a trilogia das água, constituída de Vinte Poemas do Rio, O Discurso do Rio (trinta sonetos) e Águas de Meu Rio.

VIA – Em qual gênero literário se situaria a parte principal de sua criação literária e que experiências possui em relação aos outros gêneros literários?

CM – Em cada gênero que exerço, dou de mim o máximo para ser considerado pelo leitor e valorizado pela crítica especializada. Por isso mesmo meus livros vêm sendo adquiridos por programas de governo estadual e federal, adquiridos por escolas públicas e privadas, estudados na escola e universidade.

VIA – Quando escreve ficção, ao iniciar a narrativa, essa está praticamente pronta ou tem vida própria, surpreendendo o próprio autor, só se conhecendo o enredo e o fecho no próprio processo de criação?

CM – Há um esboço, uma ideia, um embrião do que se pretende desenvolver. O eixo, que faz a história se movimentar, através dos personagens, com situações críticas, desmembra-se na medida que vou escrevendo, atinge o desfecho no próprio processo criativo. Meu estilo é ágil sem esquecer o poético na auscultação da alma humana, embora às   vezes o entorno seja o sul da  Bahia. A crítica não me vê como um autor regionalista, limitado a uma situação de características próprias, observa que o regional no que escrevo tem alcance universal.

VIA – Como vê a literatura em tempos de Internet, redes digitais, ChatGPT e outros aplicativos de Inteligência Artificial?

CM – Mudou o suporte, que em tempos atuais de Internet e afins serve para camuflar o real com um formato diferente do livro impresso, com vistas ao preenchimento do momento de prazer, da mensagem transmitida para  a compreensão e conhecimento da vida. Cabe ao escritor se ajustar à mudança dos tempos tecnológicos de hoje e seguir em frente.

VIA – Qual o maior problema para a poesia e a ficção, em uma palavra, para a literatura hoje?

CM – O problema de sempre. A literatura não resolve as questões econômicas, políticas, filosóficas, religiosas, pedagógicas, mas viver sem ela é impossível. Ela é inseparável da natureza humana, devolve ao ser humano o que é dele próprio:  a razão e a emoção.

VIA – Em qual (ou quais) projeto literário está se dedicando no momento?

CM – Pretendo publicar breve o livro Capanga de Sonetos, constituído de 128 sonetos, e cuido do romance Do menino se faz o homem, a ser publicado neste ano pela Editora Solisluna, de Salvador.

 

Assista a entrevista completa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *